O primeiro prédio, você nunca esquece
Dizem que o primeiro amor a gente guarda em um canto especial da memória. Na engenharia civil, o primeiro prédio ocupa este mesmo patamar.
HISTÓRIAS DA SAVASSI
Leo Perez
1/13/20263 min read


Dizem que o primeiro amor a gente guarda em um canto especial da memória.
Na engenharia civil, o primeiro prédio ocupa este mesmo patamar.
Para este escriba, que circulava pelos corredores da PUC Minas, o batismo na engenharia teve endereço nobre e movimentado: Rua Antônio de Albuquerque, nº 877.
No coração da Savassi, o Edifício Terrazze Savassi deixava de ser um conjunto de linhas no papel para ganhar altura, concreto e alma.
O palco era regido pelo humilde, sorridente e simpático Zezito, dono da Construtora OTIZEZ — um trocadilho criativo com o próprio nome lido de trás para frente.
No canteiro da obra, minha geografia era delimitada por figuras que se tornariam meus verdadeiros mestres.
À esquerda da minha sala compartilhada com o engenheiro José da Luz, ficava o mestre de obras, Seu Antônio; à direita, o almoxarife Carlos, guardião dos materiais e burocracias necessárias.
Cheguei na etapa da execução da fundação da obra. Com o meu capacete branco ainda brilhando e o peito estufado de estagiário. Minha missão inicial foi conferir armações de aço e os caminhões de concreto.
A engenharia real acontece nos desafios do dia a dia.
Naquela época “amassamos” muito barro vermelho em plena Savassi. O solo da Savassi parecia querer ir embora comigo para o Bairro Anchieta, onde eu residia com a Perez Family, grudava nos vãos da bota de tal forma que o barro secava e eu desenhava um rastro de terra pelo corredor do Edifício Prudenciana Guerra.
Neste momento aprendi a minha primeira lição de hierarquia e não foi com o cálculo estrutural. Quem mandava na casa, logo abaixo de Dona Regina, era a secretária Etelvina. Após o primeiro “rastro” vermelho, tomei um “torra” nada legal. Daquele dia em diante, minhas botas de engenheiro passaram a dormir no capacho, exiladas da sala do nosso apê no “Alto Anchieta” como o RP citava nas suas crônicas.
Na obra conheci o Antônio, encarregado de fôrmas de madeiras, que com uma humildade rara me contou ser ex-detento. Ele via naquela estrutura de madeira a sua própria reabilitação. Tinha também o outro Antônio, o encarregado geral, um contador de narrativas cujos causos de obras antigas valiam mais que qualquer aula teórica. O sorridente Chico cuidava da hidráulica, enquanto o reservado Mário garantia que a eletricidade avançasse pelo novo arranha céu da Savassi.
Vi a Savassi pulsar no ritmo dos caminhões de aço e concreto. Vi o tom laranja dos tijolos da alvenaria darem lugar às pastilhas e granito, verde e branco, que identificam o imponente edifício até hoje.
A criatividade era nossa maior ferramenta para atender aos exigentes futuros moradores.
Em uma das unidades, a engenharia virou arte do impossível: instalamos uma banheira de hidromassagem tão desejada pelo futuro morador que avançou do banheiro social para dentro do quarto de hóspedes.
Participar da entrega das chaves e das vistorias finais foi como ver um filho ganhar o mundo.
O Terrazze Savassi, com suas 46 unidades, não foi apenas uma obra de 46 apartamentos e duas lojas. Foi a minha escola prática.
Entre o cheiro do pó de brita e o café passado no canteiro, entendi que a engenharia se faz com cálculos, sim, mas se ergue mesmo é com o suor e a convivência harmônica diária entre os operários e sonhadores.
Do apartamento onde mora atualmente na Savassi, próximo ao Minas, minha linda e querida afilhada, Maitê, identifica e mostra para suas visitas o prédio construído pelo “dindo”.
A Savassi mudou, o tempo passou, mas sempre que cruzo a Rua Antônio de Albuquerque, olho para o número 877 e sorrio com orgulho e gratidão.
Afinal, o primeiro prédio a gente nunca esquece, ainda mais sendo na querida Savassi.






